Menu fechado

O amargo sabor da neuropatia diabética

Dados da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) indicam que 7,6% da população – média de 12 milhões de pessoas – tem Diabetes Mellitus. A doença, atualmente, tem atingido indivíduos de qualquer faixa etária no mundo, em caráter quase epidêmico como a obesidade, devido a maus hábitos alimentares e estilo de vida inadequado, associados à pré-disposição genética. Sexta causa de óbito no Brasil e responsável por alto índice de morbidade, o diabetes se caracteriza por hiperglicemia associada à falta, relativa ou absoluta, de insulina devido à lesão primária no pâncreas (Tipo I); ou quando há maior resistência periférica e dificuldade de o órgão produzir insulina eficazmente (Tipo II). Do total de diabéticos, os especialistas afirmam que 50% ou mais vão ter uma das piores complicações da doença, a neuropatia diabética, que se manifesta, em geral, por sinais ou sintomas de disfunção nos nervos periféricos.
Embora possa ser prevenida, a situação se torna mais grave porque mais da metade dos pacientes com neuropatia não apresenta sintomas e, pior, a complicação ainda é subdiagnosticada pelos médicos. Pesquisa coordenada pela Sociedade Brasileira de Diabetes constatou que 68% dos médicos entrevistados nunca examinam os pés dos pacientes em consultas. Nos Estados Unidos, dos 1.434 médicos participantes do Programa de Cuidados e Rotina da American Diabetes Association (ADA), apenas 50% realizam exame neurológico nos portadores da doença. Para tentar reverter esse comportamento, especialistas brasileiros engajados na luta contra o diabetes alertam sobre a importância de prevenir as complicações com controle glicêmico, suporte de equipes multidisciplinares, que devem integrar endocrinologistas, neurologias, ortopedistas, enfermeiros e nutricionistas, além da sistematização do diagnóstico.
Luiz Clemente S. Pereira Rolim, neurologista responsável pelo Setor de Neuropatias Diabéticas do Centro de Diabetes da Universidade Federal de São Paulo(Unifesp), enfatiza que a taxa de açúcar no sangue no diabetes descontrolado é o grande vilão para desencadear a neuropatia. Isso porque o açúcar no sangue é considerado neurotóxico e provoca o estresse oxidativo nos nervos. “Os pacientes que ficam oscilando de hiperglicemia e hipoglicemia, ou que têm altas taxas no período pós-prandial, são os maiores candidatos a ter neurite grave, porque apresentam maior variabilidade glicêmica”, alerta. A neuropatia avança lenta e silenciosamente até o aparecimento de complicações debilitantes (úlceras neuropáticas, gangrenas, impotência sexual, incontinências e disfunções cardíacas graves). O neurologista conta que pesquisas já indicaram que, dos pacientes diabéticos, 50% ou mais são portadores de neurites, mas somente 15% destes são sintomáticos e vão procurar ajuda médica. Para detectar a presença de neuropatia podem ser utilizados vários métodos de exame, mas, dependendo da sensibildade e especificidade dos recursos (testes cardiovasculares para neuropatia autonômica, eletroneuromiografia), a prevalência de pacientes com neurite pode chegar a 100%.
Dentro das afecções causadas pela neuropatia diabética, o maior fantasma é o pé diabético, principalmente devido ao surgimento de lesões que, se não forem tratadas a tempo, podem comprometer o membro e avançar para a amputação. Érika Paniago Guedes, endocrinologista do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia, no Rio de
Janeiro, ressalta que entre 4% e 10% dos diabéticos, em algum momento da doença, vão desenvolver lesões nos pés, que em geral são precedidas por traumas decorrentes da insensibilidade nos membros. As lesões do pé diabético são desencadeadas por alterações neurológicas e vasculares do membro, que promovem alteração no ponto de pressão da região plantar. A situação pode favorecer o desenvolvimento de calo, seguido de fissuras e feridas, que são as principais portas de acesso para bactérias nocivas e infecções. “Média de 80% dos casos de amputação ocorrem após lesões avançadas e não-tratadas”, acrescenta a especialista.
Em geral, o paciente com neuropatia periférica avançada não sente nada, mas quando reclama de dor pode interpretar como queimação, ardência e formigamento. Por comprometer principalmente os membros inferiores e superiores, a neuropatia diabética tem como característica peculiar o acometimento simétrico e distal, com distribuição em ‘meias’ e em ‘luvas’, ou seja, nos pés e nas mãos. “Até mesmo o paciente pré-diabético pode ter neuropatia e não saber. Isso vai depender do tempo de instalação da doença e do controle, que é fator significativo para a evolução do problema”, comenta a endocrinologista, ao enfatizar a necessidade de fazer monitoração da doença para evitar a complicação.
Sob vigilância – Os profissionais de saúde fazem coro ao enfatizar que o exame clínico, rápido e fácil pode muito bem auxiliar no diagnóstico da neuropatia periférica. A professora adjunto do Departamento de Enfermagem da Unifesp, enfermeira Mônica Antar Gamba, explica que o monofilamento de Semmes Weinstein 5.07 foi estabelecido pelo Consenso Internacional do Pé Diabético como meio de medir a sensibilidade dos pés. Em geral, a ferramenta é aplicada na região plantar do pé, principalmente na parte superior do primeiro, terceiro e quinto metatarso.
“O paciente que já perdeu um pouco a sensibilidade às vezes usa sapato apertado e nem sente incomodar. Ele precisa ter consciência e fazer o controle da
doença, examinar seus pés diariamente para que a neuropatia não evolua e chegue a uma amputação”, orienta.
Mônica Gamba, que há 18 anos atua com diabéticos e trabalha no Centro de Assistência, Educação e Enfermagem da Unifesp, e no Lar Escola São Francisco, que restam atendimento gratuito aos pacientes, explica que a prevenção começa pelo auto-exame. Durante o procedimento, o diabético deve observar a planta dos pés, achaduras, fissuras, sangramentos, líquidos e odores diferentes, inchaço e alterações da integridade da pele. Na presença de qualquer desses sinais, o paciente deve procurar um serviço especializado, por meio do qual possa receber orientação de profissionais treinados sobre uso de calçados, higiene e corte das unhas.
“No caso de ulceração, o paciente necessita de curativos específicos também”, acrescenta.
Segundo os especialistas, para evitar a maior incidência do diabetes e o desenvolvimento da neuropatia e demais complicações, o paciente deveria receber abordagem multidisciplinar. “Isso até depende de investimentos do governo, mas os médicos podem fazer a sua parte se informando mais sobre o tema”, acredita a enfermeira docente da Unifesp. Érika Paniago compartilha da mesma idéia e reforça que os médicos de outras especialidades poderiam praticar mais a educação continuada, participar de campanhas e treinamentos sobre o assunto. As profissionais informam, ainda, que a própria SBD tem propiciado cursos, fóruns de discussão e congressos para o que os médicos se atualizem e tenham capacitação para avaliar melhor o problema e evitar a neuropatia.

Download do artigo

Post relacionado

2 Comentários

  1. Fernando de Mattos sena

    Fui tratado pelo Dr. Clemente um exelente médico muito atencioso sou muito grato,a ele,apesar de sofrer muito devido as complicações do diabetes

  2. Regiane

    Na realidade, gostaria de ajuda! Tenho uma amiga que está sofrendo demais, está com 23 anos e tem neuropatia diabética desde os 15; ela passa uma semana boa e fica por um mês ruim demais; chega a perder 12 quilogramas de tanto que vomita, tudo o que ela come volta; colocou até toxina butolínica no estomago, mas de nada adiantou, e os médicos disseram que não tem mais o que ser feito; então queria ajuda para saber de algum tratamento ou algum médico ou hospital no exterior que possa nos ajudar e dar-nos esta luz, pois não sabemos mais para onde correr ou para onde ir; conto muito com sua ajuda!
    Aguardo sua resposta o mais breve possível.
    Abraços

Deixe uma resposta