Menu fechado

Entrevista para Revista “Medicina Social”

ENTREVISTA PARA REVISTA “MEDICINA SOCIAL”
São Paulo, 16 de julho de 2013.

Mestre em Endocrinologia pela UNIFESP-EPM;
Coordenador do Setor de Neuropatias do Centro de Diabetes da UNIFESP-EPM e Pesquisador da Cochrane Collaboration;
Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM);
Título de Especialista em Medicina Interna pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica. Ex-estagiário do Setor de Eletromiografia do HSPE-SP (Serviço do Dr Alonso Nieto). Ex Fellow da Yale University.

1 – Atualmente o diabetes chegou a um estágio de epidemia mundial. Hoje no Brasil existem quantos diabéticos? E no mundo?

Sim, estamos vivendo uma verdadeira epidemia de diabetes tipo 2 bem como de sobrepeso e obesidade, particularmente nos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e também na Península Arábica (Arábia Saudita, Emirados Árabes e Kuwait).

Ora, estes sete países apresentam em comum pelo menos três fenômenos recentes e diretamente ligados ao aumento do número de casos de diabetes:

A – Uma urbanização acelerada;

B – Um desenvolvimento econômico associado a hábitos de vida nada saudáveis nas grandes cidades (estresse, trânsito, fast food e sedentarismo);

C – Um particular aumento na esperança de vida média (ou envelhecimento populacional).

O Brasil é hoje o QUARTO país com mais casos de diabetes entre os adultos, perdendo apenas para os três países mais populosos do mundo: China, Índia e Estados Unidos. Assim, estima-se que hoje há 13,5 milhões de adultos com diabetes no Brasil e aproximadamente a metade destes não o sabem (dados oficiais de 2012 da IDF – International Diabetes Federation).

O que é mais triste e preocupante é constatar que há 10 anos o Brasil ocupava a oitava posição em termos de prevalência de diabetes com 5,7 milhões de casos (2003 – dados oficiais da IDF). A conclusão lógica e evidente de tais números é que infelizmente não está havendo uma política racional e inteligente para a prevenção de diabetes e obesidade em nosso país.

2 – Por que o número de diabéticos tem aumentado? O que contribui para isso?

Claramente diabetes é uma doença crônica não transmissível (DCNT) que está diretamente associada ao desenvolvimento econômico, à urbanização acelerada e ao envelhecimento populacional.

A prevalência de DM no mundo e particularmente no Brasil vem aumentando em proporções alarmantes. Nos próximos 18 anos, estima-se um aumento de 49% na prevalência de DM entre adultos no mundo (de 371 milhões em 2012 para 552 milhões em 2030), segundo dados oficiais da Federação Internacional de Diabetes (IDF, sigla em inglês).

3 – Como é possível mudar esse quadro?

Antes de tudo é crucial que se reduza a exposição das pessoas aos fatores de risco para o DM (diabete melito): sedentarismo, alimentos tóxicos (entre outros, fast food, gorduras saturadas e refrigerantes), estresse, obesidade ou sobrepeso e tabagismo. Portanto, devem-se alertar os governos, as comunidades, as famílias e os cidadãos para a importância de se agir em três grandes frentes:

1ª – Promover a saúde em todos os âmbitos políticos: planejamento urbano e da construção civil, ciclovias, ambiente de trabalho, parques públicos, exclusão social e pobreza, saúde materna e amamentação (pelo menos nos primeiros seis meses), indústria de alimentos (estoque, distribuição, propaganda e preços), bem como o acesso às novas tecnologias da indústria farmacêutica e de diagnóstico médico às classes menos favorecidas.

2ª – Promover as dietas saudáveis e redução dos alimentos tóxicos: redução do teor de sal, gorduras e açúcar nos alimentos e eliminação dos alimentos industrializados ricos em gordura trans. Proibição da propaganda de alimentos tóxicos (principalmente fast food e refrigerantes) às crianças e adolescentes. Lembro apenas que no Brasil se consomem mais de 4 bilhões de refrigerante por ano o que dá 21 litros para cada brasileiro por ano!!!

3ª – Estimular a atividade física: priorizar aulas de educação física não só para crianças, mas em todas as faixas etárias bem como promover o transporte ativo (bicicletas) das populações e um estilo de vida mais saudável nas empresas. Finalmente, mas não menos importante, a promoção da segurança pública nos parques e locais de recreação.

4 – Quais são os tipos de diabetes?

Basicamente e sendo didático classificamos o diabetes em três grandes grupos: Tipo 1, Tipo 2 e o Pré-Diabetes.

O Diabetes Tipo 1 decorre apenas de uma alteração na imunidade (é uma doença autoimune) do indivíduo, não tendo nenhuma relação com o consumo de açúcar. Compreende em torno de 10% dos casos.

Já o Diabetes Tipo 2 é de longe o mais frequente (90% dos casos). Ocorre em pessoas geneticamente predispostas onde o ganho de peso e a obesidade são fatores desencadeantes. Por sua vez, a obesidade é devida ao excesso de gordura e de carboidratos na dieta bem como ao estilo de vida sedentário típico das grandes cidades.

Tanto o DM Tipo 1 quanto o Tipo 2 podem ser diagnosticados através de duas formas:

a) Com uma glicemia de jejum maior ou igual a 126 mg/% em duas ocasiões diferentes ou;

b) Com uma glicemia isolada maior que 200 mg/% juntamente com a presença de sintomas clássicos (sede, fome, emagrecimento ou excesso de urina).

O Pré-Diabetes compreende um número enorme de pessoas que ainda não têm DM, mas apresentam um risco 5 a 20 vezes maior de apresentá-lo nos próximos anos, se não se fizer nada para a prevenção. O diagnóstico pode ser feito através de uma simples glicemia de jejum (valores entre 100 e 125 mg/%) ou através de um teste oral de tolerância à glicose (TOTG) com um valor da glicemia 2 horas após a sobrecarga entre 140 e 200 mg/%.

5 – Quais tipos de complicações uma pessoa com diabetes pode ter? Ficar cego é uma delas? Explique.

DM está entre as doenças mais impactantes e fragilizantes em termos de qualidade e quantidade de vida, pois é líder mundial como causa de cegueira, diálise, amputação não traumática de membros inferiores e problemas nos nervos periféricos como dores severas e úlceras nos pés (neuropatia diabética ou neurite).

Como se isso não bastasse, os custos em longo prazo do tratamento do DM e de suas complicações (infarto, derrame, cegueira, diálise, amputação e neuropatia) bem como o impacto negativo na produtividade laboral (absenteísmo e aposentadoria precoce) exercem efeitos devastadores na situação econômica dos indivíduos, das famílias e das sociedades.

Só para citar um exemplo, estima-se que haverá um aumento de 60% nos próximos 20 anos em relação aos gastos com DM e seu tratamento na América Latina: passando dos atuais U$ 8,1 bilhões/ano para U$ 13 bilhões/ano em 2030 (dados da IDF – 2010).

6 – O que é preciso fazer para prevenir essas e outras complicações causadas pela diabetes?

O que é crucial, quando se trata de prevenir as complicações do diabetes, é o bom controle glicêmico desde o início do diagnóstico. Se controlarmos melhor os níveis de glicose (açúcar) no sangue, nossos vasos, rins, retina e nervos agradecem muitíssimo, pois a hiperglicemia (glicemia acima de 140 mg/dl) é muito tóxica para estes órgãos. Então, o primeiro passo é controlar bem o diabetes, ter uma glicemia em jejum de 70 a 110 mg/dl e uma glicemia pós-prandial (duas horas após as refeições) de até 140 mg/dl. Mas para isso é vital uma dieta mais saudável, atividade física regular e o uso correto e disciplinado da medicação.

Embora o controle da glicemia seja fundamental para prevenirmos as complicações do DM, hoje sabemos que há outros fatores que também são importantes: em especial os valores do colesterol (LDL) que em geral deve estar abaixo de 100 mg/% e os valores da pressão arterial que deve estar em torno de 130 por 80 mmHg.

Gostaria de ressaltar que se nós conseguirmos prevenir as complicações do Diabetes, estaremos poupando bilhões de reais anuais, prevenindo inúmeras internações e cirurgias de amputação. Então, o impacto da prevenção é muito grande em termos de ônus moral, psicossocial e econômico. Vale a pena investirmos em prevenção, em diagnóstico precoce das complicações do diabetes e em educação dos pacientes e dos profissionais da saúde.

7 – Por que, em sua opinião, muitas pessoas sabem que tem a doença, mas não buscam tratamento adequado? O que falta?

Sincera e honestamente penso que o grande problema hoje não é a falta de busca de tratamento, mas sim a falta de diagnóstico precoce! Veja, estima-se que há 371 milhões de pessoas com DM no mundo hoje, mas o pior é que a metade destes (185 milhões) não tem consciência da sua condição (IDF – 2012). São pessoas portadoras de DM que nem desconfiam ou não sabem que têm DM.

É espantoso, mas 50% dos portadores de DM no Brasil não sabem de sua condição e podem permanecer muitos anos assim sem sintomas ou com sintomas que são confundidos com outras doenças. Enquanto isto, a hiperglicemia (excesso de açúcar no sangue) vai lesando os órgãos (coração, rins, retina e nervos) a tal ponto que quando descobrem serem diabéticos, já estão com complicações irreversíveis.

Portanto, recomenda-se fortemente que todas as pessoas com risco de desenvolver diabetes (obesos ou aqueles que têm parentes de primeiro grau com DM ou os idosos) realizem, ao menos uma vez por ano, um exame de glicemia de jejum (8 horas de jejum) e ou de hemoglobina glicada (requer apenas 4 horas de jejum).

8 – É verdade que a maioria das amputações das extremidades inferiores relacionadas ao diabetes é precedida de uma ulceração nos pés? Explique.

A OMS estima que, em pleno século XXI e como consequência do DM, ocorre uma amputação não traumática no mundo a cada 30 segundos. É fato conhecido que 85% das amputações em diabéticos são precedidas por úlcera e que em 90% destas, a Neuropatia Diabética (NPD), é o fator etiológico básico.

A complicação mais cara do DM é a amputação, arcando com um custo direto seis vezes maior (US$ 11.640,00/paciente/ano na Alemanha e uma média de US$ 17.500,00/paciente/ano nos EUA) em relação ao diabético não portador de amputação.

ALGUNS FATOS A RESPEITO DE AMPUTAÇÕES:

1) Ocorrem 85.000 AMPUTAÇÕES de MEMBROS INFERIORES por ano nos Estados Unidos (USA): 1 amputação a cada 10 minutos, com custo médio de U$ 37 bilhões por ano (2005).

2) 85% das amputações são precedidas por ÚLCERA e 89% destas têm NEUROPATIA DIABÉTICA como a causa básica.

9 – O Sr poderia dar 10 dicas para prevenir o Diabetes?

Para aqueles que têm um risco maior de vir a ter Diabetes ou são pré-diabéticos, é muito importante não ganhar peso ou mesmo emagrecer! Para tanto, vale a pena seguir estas dicas:

1) A melhor dieta é a que realmente funciona para você, mas tem que haver COMPROMISSO!

2) PROCURE PESAR-SE UMA VEZ POR SEMANA.

3) FUJA DOS “FAST FOOD” E MANTENHA SUA DIETA SAUDÁVEL NOS FINS DE SEMANA, NAS FÉRIAS E NOS FERIADOS!

4) NUNCA SACRIFIQUE SEU SONO E GARANTA PELO MENOS 7 HORAS POR NOITE!

5) COMA MENOS GORDURA E INVISTA em fontes de proteína magra, como ricota, PEIXE E PEITO DE FRANGO, SEM A PELE.

6) TROQUE O ARROZ, O PÃO E BOLACHAS POR PRODUTOS INTEGRAIS. TROQUE O REFRIGERANTE POR ÁGUA!

7) PRATIQUE CAMINHADAS OU QUALQUER ATIVIDADE FÍSICA AERÓBICA, PELO MENOS 150 MINUTOS POR SEMANA.

8) Consuma bebida alcoólica com moderação: EVITE OS DESTILADOS E PREFIRA VINHO TINTO SECO.

9) É CRUCIAL A CONSTÂNCIA E MANTER A ADERÊNCIA AOS ITENS ACIMA:SEMPRE E DE SEGUNDA A SEGUNDA E SEM EXCEÇÕES.

10) CONSULTE SEMPRE UM MÉDICO DE SUA CONFIANÇA!

Post relacionado

Deixe uma resposta