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Cientistas se preocupam com o número de crianças com obesidades

Calorias, dietas, regimes, obesidade, colesterol, massa magra, percentual de gordura, emagrecer, engordar, diet, light… Essas palavrinhas estão cada vez mais presentes no dia a dia da população brasileira, invadem as academias de ginástica e entram para o cardápio de muitos profissionais que prometem dicas milagrosas para manter o corpo em forma. Se entre os adultos a alimentação e saúde ganham espaço na lista de prioridades, os profissionais das universidades antecipam a preocupação: os acadêmicos estão criando grupos de estudos e laboratórios para avaliar a obesidade em crianças e adolescentes, um dos grandes desafios da saúde pública brasileira.

As pesquisas têm fundamento em números: no Brasil, uma em cada três crianças de 5 a 9 anos estava com peso acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) entre 2008 e 2009, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os obesos representaram 16,6% dos meninos e 11,8% das meninas daquela idade. Os jovens de 10 a 19 anos com excesso de peso passaram de 3,7% (na década de 1970) para 21,7% (em 2009) e entre as meninas na mesma faixa etária o aumento do excesso de peso saltou de 7,6% para 19,4%, no mesmo período.

E os estudiosos são categóricos: a criança e o adolescente obesos já desenvolvem sérios danos à saúde, como hipertensão e problemas cardiovasculares. E mais: têm grande chances de se tornarem adultos obesos. As estratégias para a mudança de comportamento devem ser feitas o mais cedo possível, pois, quanto mais precocemente se instalam os hábitos não saudáveis, mais dificilmente são combatidos.

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, o tratamento de crianças e adolescentes ganhou força há seis anos com a criação do Ambulatório de Obesidade na Criança e no Adolescente, que acompanha crianças e jovens de 3 a 20 anos. A unidade, que funciona no Hospital de Clínicas da instituição, já atendeu cerca de 220 usuários e tornou-se fonte de estudos clínicos. Foram desenvolvidas na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp quatro dissertações de mestrado com foco na obesidade em crianças e adolescentes. Em Minas Gerais, a Universidade Federal de Viçosa (UFV) também tem programa de atenção à saúde do adolescente, criado em 1998 e com atenção especial aos garotos e garotas de 10 a 19 anos.

Os pesquisadores mandam aviso para os gordinhos – e pais dos gordinhos – que se acomodam no pensamento de que a “genética não foi feliz com eles”. As causas orgânicas ou genéticas (obesidade endógena) que evoluem para o excesso de peso representam algo em torno de 5%, sendo que a maior parte dos casos (cerca de 95%) é classificada como obesidade exógena, motivada por fatores ambientais, como alimentação inadequada e sedentarismo.
“É importante que as crianças sejam acompanhadas desde cedo, pois elas estão sendo hiperalimentadas precocemente. E temos visto hoje baixa frequência das mães na amamentação, pois as mulheres trabalham”, afirma Antônio de Azevedo Barros Filho, professor do Departamento de Pediatria da FCM/Unicamp, especialista em crescimento e desenvolvimento físico da criança e do adolescente e orientador das quatro dissertações de mestrado da Unicamp.

Os trabalhos analisaram as características do sono e da qualidade de vida em adolescentes obesos, o balanço energético em adolescentes com excesso de peso, o comportamento antropométrico de adolescentes durante o ano letivo e o período de férias e a obesidade na infância e na adolescência e a percepção das mães. Este último apontou um dado interessante. “As mães geralmente enxergam o filho da vizinha ou do colega de trabalho como obesos, mas olham os seus de outra forma. Os pais obesos, de forma geral, costumam aceitar isso no filho como normal”, observa o professor Barros Filho.

A conclusão da dissertação sobre alimentação em férias e ano letivo traz boa dica para os pais. É bom abrir os olhos com os meses de dezembro, janeiro e julho, quando ocorrem as festas de fim de ano e também período em que as crianças ficam mais tempo em casa. “O trabalho acompanhou durante um ano e meio cerca de 400 crianças de 10 a 13 anos. Detectamos que elas ganham mais peso nas férias do que no período escolar, pois ficam mais em casa comendo e com pouca atividade física”, destaca Barros Filho.

Amamentação e família

A prevenção da obesidade da criança deve começar no período da gestação. O alerta é da nutricionista e professora do Departamento de Nutrição e Saúde da UFV Silvia Eloiza Priore. “Muitos estudos mostram que o problema da obesidade começa na gestação, aí a criança já nasce maior. É bom que a mãe não deixe de ganhar peso nem ganhe acima do recomendado”, diz. Ela ressalta ainda a importância da amamentação até os seis meses do bebê. “Se ele não recebe leite materno, há chances maiores de ter peso errado, tanto para mais como para menos”, observa. No início da infância, acrescenta, é importante que sejam evitados alimentos semiprontos ou industrializados, ricos em açúcares e gorduras.

A família tem papel fundamental na mudança de hábito na alimentação das crianças, afirma a nutricionista Ermelinda Maria Leite Prado, do Centro de Nutrição Ermelinda Lara. Ela trabalha há 30 anos com obesidade infantil e destaca que os casos mais graves devem ser acompanhados por uma equipe multidisciplinar: endocrinologista, psicólogo, educador físico e nutricionista. “Na grande parte dos casos o problema ocorre em função da indisciplina dos pais. Há falta de critério na lista de compras e definição dos cardápios”, afirma. O exemplo, diz, é fundamental. “Como a mãe vai querer que o filho coma brócolis ou cenoura se ela própria não come?”, indaga Ermelinda.

A nutricionista destaca que a criança obesa nem sempre vai ser um adulto obeso, mas o adolescente tem grande chances de passar a vida adulta acima do peso. “O número de células gordurosas vai ser definida até a puberdade”, diz. O adolescente Felipe Grego, de 15 anos, é paciente de Ermelinda e tomou providências a tempo. Há cerca de um ano estava se sentindo gordo, com dificuldades para fazer atividade física e começou um projeto de reeducação alimentar. No período emagreceu cerca de cinco quilos e cresceu em torno de 10 centímetros.

Hoje, com 1,85 metro e 70 quilos, tem corpo saudável. “Passei a comer nos horários certos, mais vezes e em quantidades menores. Incluí mais frutas e proteínas no cardápio e diminuí os carboidratos. Foi mais uma mudança de hábito do que sacrifício”, conta Felipe. A mãe, a consultora Inês Castro, também teve uma experiência bem-sucedida com a reeducação alimentar. “Fui gordinha até os 11 anos de idade. Depois emagreci e nunca mais voltei a engordar. Vi que o Felipe estava acima do peso, não estava gostando, mas também não sabia como sair da situação. Procuramos então ajuda da nutricionista.”

Alimentos “do bem”

1 – Frutas, verduras e legumes frescos, orgânicos, de cores vivas e variadas

2 – Leguminosas como feijão, ervilha, lentilha, grão de bico e soja

3 – Cereais integrais como arroz integral, arroz selvagem, quinua real e, principalmente, a aveia integral

4 – Azeite de oliva extravirgem, com a acidez menor do que 0,5

5 – Castanhas oleaginosas, principalmente castanha-do-pará, nozes, avelãs, amêndoas

6 – Iogurtes pró-bióticos: micro-organismos vivos que resistem ao suco gástrico, ou seja, aqueles que têm mais de 10 bactérias formadoras de colônias

7 – Carnes brancas, magras e frescas, principalmente peixes de mar gelado e águas profundas. Ovos em geral, principalmente de galinha caipira

8 – Leite desnatado enriquecido com vitamina D e queijos magros, como a ricota, o cottage, a muçarela light ou de búfala

9 – Pães integrais ou cereais matinais com pouco açúcar

10 – Doces de frutas caseiros, principalmente as compotas, sorvetes e picolé de fruta e o chocolate amargo

Alimentos “do mal”

1 – A maioria dos alimentos industrializados, principalmente enlatados de carnes (salsicha, atum, sardinha)

2 – Carnes conservadas de forma artificial (enlatados, embutidos tipo presunto, mortadela, alimentos defumados, carnes processadas e congeladas, tipo hambúrguer)

3 – Frituras em geral, principalmente as de restaurantes e lanchonetes (óleo velho e de má qualidade) e em especial aquelas “empanadas”
tipo à milanesa ou à doré

4 – Todos os alimentos elaborados com gordura trans: salgados em geral, principalmente os de massa folhada ou de massa “podre” (empada, pastel assado, tortas em geral, folhados); biscoitos em geral, principalmente os mais torradinhos ou mais crocantes (recheados e amanteigados)

5 – Todos os cereais refinados, com baixos teores de micronutrientes, que só fornecem energia vazia. Exemplo: pães brancos, arroz branco, massas refinadas, farinhas em geral e todas as preparações elaboradas com esses alimentos

6 – Gorduras animais: bacon, manteiga, creme de leite, queijos
e carnes gordas

7 – Doces e sobremesas mais elaboradas, principalmente aquelas com grande quantidade de creme de leite, manteiga, gordura vegetal e elevada concentração de açúcar refinado

8 – Quitandas e “snacks” em geral. Produtos mais sofisticados vendidos em padaria ou supermercados (industrializados). Tudo crocante ou que “derrete na boca”

9 – Pratos prontos e congelados

10 – Sucos de pacote (todos eles, principalmente os da linha light, pois têm excesso de sódio)

11 – Refrigerantes em geral e todos os similares

12 – Tira-gostos “salgadinhos”, ou seja, com excesso de sal

13 – Sopas de pacote, principalmente as mais salgadas, e caldos de carne em tablete

Fonte: Pernambuco

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